Geral

Seca histórica do Rio Madeira deixa milhares de pessoas sem água e dificulta acesso à escola em Porto Velho

A forte estiagem que atinge o Rio Madeira tem provocado mudanças profundas na rotina das comunidades ribeirinhas de Porto Velho, em Rondônia. Com o nível da água abaixo do esperado, moradores enfrentam dificuldades para conseguir água potável, transportar alimentos, manter a produção agrícola e garantir que crianças e adolescentes cheguem à escola. A situação levou a prefeitura a decretar estado de emergência na capital.

De acordo com informações da administração municipal, aproximadamente 22,9 mil pessoas, distribuídas em 85 localidades, são afetadas pela seca. O número inclui moradores de áreas rurais, comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas.

Famílias enfrentam dificuldades para conseguir água potável

Na comunidade Bom Será, a falta de uma estrutura adequada para o abastecimento de água preocupa os moradores. A presidente da associação local, Elizete Mota Leite, relata que a comunidade não possui um poço próprio capaz de atender todas as famílias. A alternativa disponível não alcança todos os moradores e, segundo ela, a água não é apropriada para o consumo.

Em sua casa, onde vivem seis pessoas — quatro crianças e dois adultos —, a quantidade de água disponível é insuficiente para atender às necessidades diárias. O marido de Elizete precisa transportar galões para garantir o abastecimento da família, mas a água acaba rapidamente.

Além da escassez imediata, existe o receio de que o poço artesiano utilizado pelos moradores também tenha seu abastecimento comprometido com o avanço da estiagem.

Seca provoca prejuízos à produção de banana

Os impactos também atingem diretamente os trabalhadores rurais que dependem do transporte fluvial para comercializar seus produtos.

A agricultora Maria Rita conta que ficou quase quatro meses sem conseguir retirar a produção de banana de sua propriedade. Com as dificuldades de acesso ao bananal e de deslocamento pelo rio, parte dos frutos passou do ponto de colheita e começou a estragar.

Em condições normais, ela transporta as bananas nas costas até a margem do rio, coloca a produção em uma canoa e segue até o porto. Com as alterações provocadas pela seca, esse percurso se tornou mais difícil, prejudicando o escoamento da produção e colocando em risco a renda da família.

Bancos de areia mudam a paisagem do Rio Madeira

Em diferentes trechos do Rio Madeira, extensas faixas de areia e áreas de terra surgiram onde antes havia água. A mudança na paisagem evidencia a redução do nível do rio e as dificuldades enfrentadas por quem depende dele para se locomover.

Na comunidade Brasileira, a agricultora Telma Temes da Silva, de 41 anos, afirma que acompanha as transformações da região desde a infância. Segundo ela, a estiagem tem alterado significativamente o cenário local, com o aparecimento de bancos de areia em áreas anteriormente cobertas pelo rio.

Crianças precisam caminhar quilômetros para chegar ao transporte escolar

A queda do nível da água também compromete o acesso à educação. O filho de Telma estuda na comunidade de São Carlos e depende do transporte fluvial para chegar à escola.

Com a redução da água e o afastamento das embarcações das áreas de moradia, o estudante precisa percorrer de quatro a cinco quilômetros a pé até o ponto de embarque. O trajeto representa mais um obstáculo para as famílias que vivem às margens do Madeira e dependem dos barcos para realizar atividades essenciais.

Nível do rio fica abaixo da média esperada

Na terça-feira, dia 6, o Rio Madeira registrou 2,62 metros. Para o período, a previsão média era de 3,9 metros, conforme dados do SipamHidro, plataforma de monitoramento do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).

Embora a região amazônica enfrente anualmente o chamado verão amazônico, período de estiagem que normalmente ocorre entre julho e novembro, os registros indicam que o nível do Madeira está mais de um metro abaixo do esperado para esta época.

Porto Velho decreta emergência por 180 dias

Diante dos impactos provocados pela estiagem, a Prefeitura de Porto Velho decretou situação de emergência pelo período de 180 dias. A ocorrência foi classificada como desastre de nível II, permitindo que o município solicite apoio dos governos estadual e federal para ampliar as medidas de assistência.

Entre as ações previstas estão o fornecimento de água potável por meio de caminhões-pipa e embarcações, além da facilitação de contratações e da aquisição de materiais necessários para atender às áreas afetadas.

A navegação também sofreu restrições. Bancos de areia e formações rochosas passaram a dificultar a circulação de embarcações, levando a Marinha a restringir o tráfego noturno. O transporte de cargas em balsas também foi reduzido.

Para minimizar os problemas de navegação, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) prevê concluir os serviços de dragagem até novembro. A Defesa Civil Municipal informou que as comunidades ribeirinhas deverão receber assistência durante o período de estiagem.

Enquanto o nível do Rio Madeira permanece abaixo do esperado, milhares de moradores de Porto Velho continuam enfrentando os efeitos da falta de água, os prejuízos na agricultura e os obstáculos para estudar e trabalhar. A situação reforça a importância de medidas emergenciais para garantir o abastecimento, a mobilidade e as condições básicas de vida das populações mais afetadas.

Imagem: defesa Civil

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo