Médicos confundem larvas de verme no cérebro com metástase de câncer – ENTENDA

Jornalismo — OMadeira
Um homem de 60 anos, na Espanha, recebeu um diagnóstico inesperado após procurar atendimento médico com fortes dores de cabeça e alterações no comportamento. Embora os primeiros exames indicassem a possibilidade de um câncer com metástases no cérebro, uma investigação mais detalhada revelou que as lesões eram provocadas por uma infecção parasitária conhecida como neurocisticercose.
O caso foi registrado por especialistas do Hospital de La Plana, na cidade de Vila-Real, e publicado na revista científica Emerging Infectious Diseases, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).
Suspeita inicial era de metástase cerebral
O paciente procurou atendimento em 2025 após apresentar dores de cabeça persistentes por cerca de duas semanas, além de pequenas mudanças de comportamento.
Os exames iniciais identificaram diversas lesões no cérebro acompanhadas por inchaço, levando os médicos a suspeitar que um tumor localizado em outro órgão tivesse se espalhado para o sistema nervoso.
Para controlar o edema cerebral, foi iniciado tratamento com dexametasona, medicamento que reduziu os sintomas enquanto a equipe médica buscava identificar a origem do suposto câncer.
Exames descartaram a presença de tumor
Na sequência, o paciente passou por uma série de exames, incluindo tomografia computadorizada de corpo inteiro, colonoscopia e PET-CT. No entanto, nenhum deles encontrou sinais de câncer.
Diante da ausência de um tumor primário, os especialistas decidiram aprofundar a investigação. Uma ressonância magnética mostrou dezenas de pequenas lesões distribuídas pelo cérebro. Algumas delas apresentavam uma estrutura característica da larva da Taenia solium, verme responsável pela neurocisticercose.
Diagnóstico foi confirmado em laboratório
Para confirmar a suspeita, amostras do paciente foram enviadas ao Centro Nacional de Microbiologia, em Madri. Os exames laboratoriais detectaram anticorpos contra a Taenia solium, confirmando que as alterações no cérebro eram consequência da infecção parasitária.

O tratamento foi realizado com os medicamentos antiparasitários albendazol e praziquantel, associados à dexametasona para reduzir a inflamação causada pela eliminação das larvas. Segundo os médicos, o paciente respondeu bem ao tratamento e apresentou recuperação satisfatória.
Caso chamou atenção dos especialistas
O que mais surpreendeu os pesquisadores foi o fato de o paciente nunca ter viajado para regiões onde a doença é mais frequente. Além disso, exames realizados nele e em seus familiares não encontraram ovos do parasita.
Com base no histórico de vida, os especialistas acreditam que a infecção possa ter ocorrido anos antes, quando o homem trabalhava na construção civil e dividia ambientes de alimentação e convivência com pessoas vindas de países onde o parasita é mais comum. Apesar disso, a origem exata da contaminação não pôde ser comprovada.
Entenda a diferença entre teníase e neurocisticercose
Embora sejam causadas pelo mesmo parasita, teníase e neurocisticercose são doenças diferentes.
A teníase ocorre quando a pessoa ingere carne bovina ou suína crua ou malcozida contendo larvas da tênia. Nesse caso, o verme adulto permanece no intestino.
Já a neurocisticercose acontece quando são ingeridos ovos da Taenia solium, geralmente presentes em água, alimentos ou mãos contaminadas por fezes de pessoas infectadas. Após entrarem no organismo, as larvas podem alcançar o cérebro e formar cistos, provocando sintomas como dores de cabeça, convulsões, alterações neurológicas e outros problemas graves.
Como prevenir
Os especialistas reforçam que medidas simples de higiene são fundamentais para evitar a doença. Entre elas estão lavar bem as mãos antes das refeições, higienizar frutas e verduras, consumir água tratada, cozinhar adequadamente as carnes e garantir o diagnóstico e tratamento de pessoas com teníase, interrompendo assim a transmissão do parasita.
Segundo os pesquisadores, o caso reforça a importância de considerar a neurocisticercose entre as possíveis causas de múltiplas lesões cerebrais, mesmo em pacientes sem histórico de viagens para áreas onde a doença é considerada endêmica.




