Polícia

Quando a própria casa deixa de ser segura: feminicídio cai em Rondônia, mas violência contra mulher persiste

Por: Hanna Cândido

O Brasil registrou 848 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026, contra 876 no mesmo período de 2025. A queda é de 3,2%, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), consolidados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp).

Os dados integram o monitoramento do Ministério da Justiça e Segurança Pública e do Ministério das Mulheres. A média móvel de casos chegou a 141,8 vítimas em março, maior patamar recente e, caiu para 119,8 em julho, uma redução de 15,5%.

Na análise regional, três regiões apresentaram queda. O Nordeste registrou a maior redução, de 14,4%, passando de 257 para 220 vítimas. O Sudeste caiu de 317 para 302 (-4,7%) e o Norte de 85 para 84 (-1,2%). Na contramão, Sul e Centro-Oeste tiveram alta de 14,9% e 7,3%, respectivamente. Ao todo, 14 estados apresentaram redução. Entre eles, Rondônia aparece com a maior queda percentual do país: 64,7%.

Rondônia: perfil e cenário em 2025 e 2026

De acordo com o Observatório da Segurança Pública da Sesdec, Rondônia acumulou 27 feminicídios entre 1º de janeiro de 2025 e o final de fevereiro de 2026.

O perfil das vítimas em 2025 mostra que 65,1% são mulheres negras e 56,5% têm entre 25 e 44 anos. Em mais de 62% dos casos, o crime ocorreu dentro da própria residência da vítima. Em mais de 96% dos casos os autores são homens, e em até 80% são o atual ou ex-companheiro.

O levantamento aponta ainda que entre 13,1% e 17% das vítimas possuíam medida protetiva de urgência vigente. Outros crimes também cresceram no período: violência psicológica teve alta de 17%, perseguição (stalking) cresceu 30% e o descumprimento de medidas protetivas subiu 16,7%.

Pesquisa do DataSenado indica que cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar em período recente.

Casos de grande repercussão em Porto Velho

Entre os casos de maior repercussão está o de Jaiane Lemos e Everaldo Oliveira, em abril de 2024. O crime ocorreu após a invasão de uma residência em Porto Velho e terminou com as duas vítimas mortas. O caso foi a júri popular em outubro de 2026.

Em novembro de 2024, durante a Semana de Ativismo, o estado registrou três feminicídios em menos de 72 horas, com forte comoção. Um dos casos foi o de Daiana Gomes Farias, morta a tiros no bairro Eletronorte, em Porto Velho, ao tentar defender uma amiga de uma tentativa de feminicídio.

O autor foi encontrado morto meses depois, em fevereiro de 2025.

Mesmo com redução, 2026 registra crime dentro de sala de aula

Apesar da redução nos indicadores de 2026, o ano foi marcado por um crime que gerou comoção nacional em Porto Velho.

No dia 6 de fevereiro de 2026, a professora de Direito e escrivã da Polícia Civil, Juliana Mattos Lima Santiago, de 41 anos, foi assassinada dentro de uma sala de aula no Centro Universitário Aparício Carvalho (Fimca).

Segundo a investigação do Ministério Público de Rondônia, o autor foi um aluno de 24 anos do curso de Direito. Após a aula, ele atacou a professora dentro da sala. O MP apontou que o crime foi motivado por inconformismo com a recusa da vítima em manter um relacionamento. O suspeito foi contido por um estudante que é policial militar, preso em flagrante e denunciado por feminicídio por motivo torpe.

Operação Mulher Segura

Para enfrentar a violência, o Ministério da Justiça tornou permanente, desde 1º de junho, a Operação Mulher Segura, coordenada pela Senasp com integração das forças estaduais e federais.

Em 141 dias, a operação prendeu 57.790 agressores em todo o país, segundo balanço divulgado em 19 de outubro. Foram 49.129 prisões em flagrante e 8.661 por mandados judiciais. Os crimes mais registrados foram lesão corporal, ameaça e descumprimento de medidas protetivas.

A ação mobilizou 123.878 policiais e 44.906 viaturas, alcançando 4.253 municípios. Além das prisões, foram atendidas 228.194 vítimas, realizados 155.641 acompanhamentos de medidas protetivas e 50.239 visitas preventivas. Ações educativas alcançaram 669 mil pessoas.

A região Sul concentrou 36% das prisões, seguida do Centro-Oeste (26%), Sudeste (18%), Nordeste (15%) e Norte (4%).

Canais de denúncia

Se você ou alguém que conhece está sofrendo violência, procure ajuda:

Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher – atendimento gratuito, confidencial e 24 horas em todo o Brasil.

Ligue 190: Polícia Militar – para situações de emergência e risco iminente.

DEAM – Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher: procure a unidade mais próxima ou acesse a delegacia virtual do seu estado.

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